sexta-feira, 29 de agosto de 2008


Sabes que tenho saudades tuas? Talvez saibas, talvez não. Gostava que soubesses... E que também tivesses saudades. Que me visses em cada linha dos textos que percorres, em cada sonho dos que te visitam à noite, em cada pensamento que te preenche...
Talvez não saibas simplesmente porque não to disse... Talvez não saibas porque não queres saber... Talvez nos preencha a ambos uma incerteza paralisante.
Talvez não saibas que quando te olho, me perco profundamente nos teus olhos. Talvez não saibas a atenção que presto a cada gesto ou como valorizo cada palavra.
E como foi? Foi de um dia para o outro, inexplicável e inesperado... Mas deixaste de ser o mesmo, agora és especial. Especial demais para te conseguir esquecer.
Não sei como vai ser, não sei sequer se vai ser. Só sei que gostava que fosse... e que gostava que soubesses as saudades que sinto tuas e que também as sentisses... Só isso, nada mais...
V. C

Hoje olhei para ti de maneira diferente... Ou olhei para ti da mesma maneira, mas vi algo diferente. Um brilho especial no teu olhar revelou-me uma mensagem que tenho detido oculta, da qual não me tenho apercebido. Há um sentimento por detrás desse olhar. Como é que eu não percebi antes?
Com as banalidades do dia a dia, com a ausência de tempo, com o estudo, com o ritmo alucinante e com tudo o resto, muitas vezes não reparamos no que está ali, à nossa frente. E às vezes, quando o conseguimos ver... é, infelizmente, tarde de mais.
Não acho que seja tarde. Acho que vi a magia no teu olhar a tempo... talvez a tempo de me deixar contagiar, talvez a tempo de te deixar contagiar-me. Com o teu ar discreto, sensato, calmo, mas, indiscutivelmente, lindo... tens-me trazido enganada, cega. E agora abri os olhos e vi os teus, que há muito não largam o azul dos meus.
Agora tudo faz sentido, agora tudo é muito mais fácil de compreender. Cada doce palavra tua, cada gesto de reconforto e de incentivo, os teus inúmeros e inacabados esforços para me agradar, os olhares, por vezes, ligeiramente raiados de ciúmes que lançavas... Tudo, agora, é por demais óbvio... e doce. Como é bom saber agora o que sei. Saber que os meus olhos encontram correspondência nos teus e que as nossas mãos, se tocam bem mais perto, algures nos sonhos, do que poderia alguma vez imaginar.

"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes azuis. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes azuis. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo.

E. A